Crime e Castigo X Nina

Literatura e cinema: Aproximações e diferenças entre Crime e Castigo e Nina

Autoria: Roberto Teixeira da Silva
Orientação: Luiz Percival de Leme Britto

“O cinema é a presciente antevisão
Na sucessão de imagens. O cinema
É o que não se vê, é o que não é
Mas resulta: a indizível dimensão.”

(Vinicius de Moraes)

RESUMO: esse trabalho discute quais são as aproximações entre a obra clássica de Dostoiévisk, Crime e Castigo e o filme Nina de Heitor Dhalia.Com a comparação entre os personagens e cenas, analiso a hipótese do filme não ter sido apenas inspirado no livro, mas sim que ele é uma adaptação.
PALAVRAS-CHAVE: adaptação, comparação, análise, personagens.

1. Introdução
A discussão sobre que obra de arte é mais completa, a literatura ou o cinema, é antiga. Desde os irmãos Lumière, a arte cinematográfica encanta os homens e, a partir do momento em que os clássicos da literatura começam a ser transpostos para a sétima arte, essa discussão ficou mais forte.
Segundo Joan Ferres:
a leitura e [o cinema] não deveriam ser consideradas praticas opostas, mas, sim, complementares. São atividades culturais compatíveis. No entanto, seguem parâmetros comunicativos realmente diferentes e ativam processos mentais diversos. Em conseqüência, uma imposição excessiva a uma delas pode desenvolver algumas capacidades e atitudes que não são as mais adequadas para a pratica da outra.  (FERRÉS, 1996, p. .21)
As duas formas nos trazem uma experiência indescritível e transformadora, ambas possuem suas belezas e complexidades. “A linguagem verbal é uma abstração da experiência, enquanto que a imagem é uma representação concreta da experiência. Se o livro favorece o conhecer, o [cinema] favorece o reconhecer.” (Ferrés)
Por isso, o intuito desse artigo é analisar a obra clássica Crime e Castigo (1866) do escritor russo Dostoievisk e as influências que teve no filme Nina (2004) do diretor pernambucano Heitor Dhalia.
Quando o cineasta e o espectador estão ligados pela mesma cultura, pelos mesmos fatos sociais e econômicos, a participação poderá ser ainda maior. Neste caso, estou lidando com duas culturas diferentes e isso enriquece um pouco mais a análise.
    “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.” (Calvino)

2.Adaptação
O filme foi inspirado pelo romance; porém, o diretor não aceita o título de adaptador. Em entrevista dada ao site Terra Cinema, os criadores dizem que o filme foi apenas inspirado na obra. Dhalia diz o seguinte: “sempre fui fascinado pela psicologia das personagens de Dostoievisk. O que é mais parecido (com o livro) é a atmosfera do filme. O centro de São Paulo está muito deteriorado, acaba sendo cenário de inúmeras criaturas marginais.” (http://cinema.terra.com.br/ficha/0,,TIC-OI5008-MNfilmes,00.html)
Ele modifica o gênero da personagem principal, modifica o tempo e o espaço para distanciar uma obra da outra.
Para Sartre, o paralelismo não existe. “Como em tudo o mais, não é apenas a forma que diferencia, mas também a matéria; uma coisa é trabalhar com sons e cores, outra é expressar-se com palavras.” (Sartre) De fato, Sartre têm razão, mas, da mesma forma que quando lemos somos guiados por um labirinto de emoções em que vive Raskolnikov e por ruas escuras e cheias de névoa somos movidos, como disse Dhalia, pelo mesmo clima da obra de Dostoievisk em Nina.
    Tanto Rodion como Nina ficam muito perturbados após cometer um assassinato. O estudante mata uma velha agiota para tentar modificar a condição de pobreza em que vive, principalmente depois de receber uma carta da mãe que relatava que a irmã, Dúnia, iria se casar e, com isso, o próprio seria beneficiado, pois futuramente, trabalharia com o cunhado. Essa carta foi um dos fatos culminantes além da fome e humilhações para que ele tomasse a decisão de matar a velha agiota e acabar matando a irmã da velha que aparece logo após o primeiro assassinato.
Nina também comete um homicídio. Ela vivia com Dona Eulália uma, senhora mesquinha que alugava um quarto a ela. Da mesma forma que Raskolnikov, ela,  movida pela fome, falta de dinheiro e pelas humilhações que sofria mata a mulher.
O jovem Ródia mata suas duas vitimas a machadadas, enquanto Nina, usa um saco plástico para matar Eulália, porém, no momento do assassinato o diretor do filme faz uso de animações para ilustrar a cena. O cartunista e escritor Lourenço Mutarelli, exibe com maestria a cena das machadas contada por Dostoievisk em seu livro, ilustra o assassinato pensado por Dhalia e ainda dá uma terceira opção de como o filme poderia ter ocorrido.
Para um publico que não conhece a obra escrita, o filme parece realmente ser uma obra criada pela mente do cineasta. Porém analisando as duas obras, discordo da idéia que o filme tenha sido apenas inspirado pelo livro há vários indícios de que ele é sim uma adaptação.
De fato, ainda não se notou suficientemente que uma obra do espírito é naturalmente alusiva. Ainda que o propósito do autor seja dar a mais completa representação do seu objeto. (SARTRE, 1993, p.56)
    Crime e Castigo foi publicado em 1866. Desenvolve sua história com personagens labirínticos que nos envolvem profundamente. Nina estreou nos cinemas brasileiros em 2004, sendo bastante comentado pelas capitais do país por onde foi exibido. Fez muito sucesso quando foi exibido em Berlim.
Qualquer coisa significativamente nova numa narrativa realista deve corresponder a alguma coisa significativamente nova na realidade. E isto só pode ser alcançado através de uma nova maneira de encarar a vida. Tecnicamente, a exigência de uma nova visão dá forte ênfase sobre o ponto de vista narrativo – talvez, mais corretamente, sobre os relacionamentos entre os pontos de vista, assunto e público. (SCHOLES/KELLOGG, 1929, p. 109).
Por mais que a história do filme nos seja contemporânea, ela, como disse Dhalia, não perde o espírito pensado por Dostoiévisk, assim como falado por Scholes e Kellogg, ela nos dá um novo “ponto de vista narrativo”. Como o tempo nós também evoluímos e é fato que uma história clássica adaptada para o cinema, com suas diferentes técnicas da literatura para se contar uma história, deva trazê-la de uma forma mais modernizada. Condensar mais de trezentas paginas em uma hora e meia de fita, não é uma tarefa fácil. Por isso que Dhalia diz que seu filme não é uma adaptação, porém tudo o que lemos e assistimos, torna-se intertextual ao que criamos. “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta com a primeira” (Calvino)
Se o filme de Dhalia não é uma adaptação, como é que ele coloca em seu filme personagens tão fiéis ao do livro que desempenham as mesmas funções? Como é que algumas cenas parecem ser releituras mais modernas das paginas do livro?
Segue um quadro comparativo entre alguns personagens e suas funções dentro das duas obras.
Personagens
Crime e Castigo
Nina
Prostituta
Raskolnikov vê o estado de torpor de uma menina em um banco de rua e preocupa-se com um homem que está acerca da garota. Tenta protege-la e ainda dá a ela o único dinheiro que tem.
A mulher é agredida por um motorista de táxi, numa das ruas do centro de são Paulo. Nina se depara com a cena e resolve intervir a favor da mulher. Dá o dinheiro que usaria para pagar Dona Eulália ao motorista, que no mesmo momento vai embora e deixa a prostituta em paz.
Os pintores
No momento em que o estudante comete seus crimes há dois pintores trabalhando no andar de baixo. No momento em que esses dois personagens são descritos eles estão cantando, alegres por já estarem no final de seu expediente. Eles são os primeiros acusados pelo crime.
Dois pintores estão trabalhando em um apartamento no mesmo andar ao que Nina mata Eulália. Eles comem sanduíches, cantam, pintam um ao outro e forjam uma briga pelo corredor do prédio. Ao final da cena saem abraçados como se nada tivesse acontecido.
Rasumikin e Alice
Rasumikin é um tipo de porto seguro para Ródia. Antes de cometer seus crimes, o jovem procura o amigo para que ele o ajude a resolver a situação de pobreza em que vive. Rasumikin oferece uma solução, mas por ser muito orgulhoso, Raskolnikov não aceita a ajuda do amigo.
Nina sente-se atormentada antes de matar Dona Eulália, procura a amiga Alice para tentar modificar a condição em que vive. A garota aconselha Nina a se prostituir, mas ela não consegue. Depois percebendo que Nina está completamente perdida, oferece dinheiro a ela, que no mesmo momento, movida por seu orgulho devolve.
Marmiélodov e Ana
Ródia conhece Marmiélodov em uma taberna. É neste momento em que o jovem conhece a história o homem e acaba se afeiçoando a ele. Depois de um tempo Raskolnikov reencontra Marmiélodov de uma forma trágica. O amigo tinha acabado de ser atropelado por uma carruagem. Ele ajuda o homem levando-o até a sua casa para que ele possa morrer em paz. É nesse momento em que Ródia conhece Sônia. Marmiélodov era alcoólatra.
O filme começa com Nina trocando impressões com Ana em uma lanchonete. Discutem sobre a condição dos seres-humanos e logo após vão a uma festa na casa de Ana. A garota é viciada em drogas. Marmielodov morre atropelado pois estava bêbado e Ana tem uma overdose.
    São muitas coincidências para que Dhalia afirme que sua obra não é uma adaptação.

3. Ordinários e extraordinários
Uma outra forma de defender que o filme Nina é uma obra adaptada é comparar as personagens principais das duas histórias. Começando por Raskolnikov, Scholes e Kellogg têm a seguinte opinião sobre as personagens do século XIX:
A sintaxe pouco prosaica do moderno fluxo da consciência parece haver-se estabelecido como técnica literária como subproduto do interesse do século XIX por processos mentais anormais. Assim como a própria psicologia adquiriu seu verdadeiro ímpeto pelo estudo de casos anormais, a prosa psicológica deve muito a psique desordenada manifestada por um escritor vigoroso e influente como dostoiévisk. O indivíduo anormal e o individuo normal sob tensão anormal, como nos monólogos antigos, ofereceram aos escritores do século XIX oportunidade para notáveis efeitos de caracterização que se refletiram não só nas obras narrativas da época, mas também na voga do monólogo dramático em verso. (SCHOLLES/KELLOGG,1977, p.135)
    Assim como eles disseram, Raskolnikov é um garoto normal que já no começo do livro fica claro está passando por um momento de tensão anormal:
Havia algum tempo que ele se achava em um estado de excitação nervosa, vizinho da hipocondria. Andava tão concentrado em seus pensamentos e afastado de todos, que chegara ao ponto de não só temer encontrar-se com a senhoria, mas a deixar de manter relações com seus semelhantes. A pobreza esmagava-o, mas ultimamente até isso chegara a ser insensível. Renunciara por completo às suas ocupações.
Neste trecho de Crime e Castigo é visível que Ródia está passando por problemas psicológicos. Da mesma forma nina não consegue se adaptar a seu trabalho de garçonete, sente-se mal por estar nessa condição e acaba também renunciando a sua função.
[Nesta] ficção do fluxo da consciência como um tipo de ficção em que a ênfase principal é posta na exploração dos níveis de consciência que antecedem a fala com a finalidade de revelar, antes de mais nada, o estado psíquico dos personagens. (HUMPHREY, 1976, p.4)
Este fluxo de consciência fica mais claro quando os dois personagens estão sonhando. Neste momento há uma interceptação entre presente e passado quebrando os limites espaço-temporal.
Tanto Raskolnikov como Nina retornam a infância num tipo de pesadelo. Ambos estão em um ambiente de festa, porém sombrio e vêem um ser massacrado por essas pessoas. Esta é mais uma coincidência entre as duas obras. Ambos os personagens decidem assassinar sua vítimas após este sonho.
Após os crimes entra uma outra questão que Dhalia transpôs para sua personagem, a culpabilidade. Segundo Japiassei e Marcondes esse termo nada mais é que um “sentimento do indivíduo com consciência de ter cometido uma violação grave a uma regra moral, religiosa ou social pela qual ele se sente responsável.”
Essa culpa faz com que entrem em declínio. Chegam a um estado de histeria tão grande que acabam se entregando aos oficiais. Com a diferença que Raskolnikov passa oito anos na prisão e Nina após confessar fica livre, pois é diagnosticado que Dona Eulália teve uma parada cardíaca.
 Talvez o ponto chave da comparação entre esses dois personagens seja a filosofia de vida dos dois. Eles creditam que os seres-humanos estão separados entre os que são ordinários e os que são extraordinários. Moldam suas vidas em cima dessa idéia.

4. Conclusão
Após analisar as duas obras, fica claro que o filme Nina é sim uma adaptação de Crime e Castigo. Levando em conta seu orçamento, o país em que foi filmado, não há como negar que Dhalia quisesse repassar a idéia de que seu filme foi somente inspirado pelo livro. Mas não adiantam subterfúgios, estudando as duas obras: ambas têm o mesmo núcleo e, neste sentido, são (sem o ser) praticamente a mesma.
O mais importante disso tudo é que aqueles que não sabem apreciar uma obra clássica como Crime e Castigo, mas gostam de cinema, podem ao menos sentir um pouco da atmosfera da história e quem sabe até interessar-se em ler o livro. Como diria Calvino, “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”
Nesse jogo entre a literatura e o cinema ninguém perde, todos ganham.

Referências
SARTRE, Jean-Paul O que é literatura?.São Paulo: Ática,1993, 2ª edição
SCHOLES,R.;KELLOGG,R. A narrativa da natureza São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1977
CALVINO, Ítalo Por que ler os clássicos São Paulo:  Cia. Das Letras, 1993
FERRÈS, Joan Televisão e educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996
HUMPHREY,R. O fluxo da consciência. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1976
JAPIASSEI, H.;MARCONDES,D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996 

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